Entrevista: A organização e a sua visão sobre animais abandonados.

ENTREVISTA PARA A FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS DA UNIVERSIDADE CATÓLICA
ENTREVISTADO: Coordenador da InfoNature.Org (www.infonature.org)
ASSUNTO: A organização e a sua visão sobre animais abandonados.
 

1 - O que o motiva a prestar este tipo de serviços e há quanto tempo o faz?

O que me motiva a mim pessoalmente e a outras pessoas a fazer voluntariado e activismo em prol dos animais, é basicamente o reconhecimento que temos pelos animais ditos “irracionais”, como sendo seres sencientes com o sentido de termos a consciência que esses animais, tal como nós Humanos, possuem as características de sentir dor, ter pensamentos (como sonhar) e possuir emoções dos mais variados níveis. Desta forma, temos a verdadeira percepção do que eles realmente representam, do seu valor tanto individual como colectivo em relação ao ecossistema e desta forma obtemos um consequente e inevitável respeito pelos seus direitos, pela sua vida, pela sua liberdade e pela sua felicidade.
Devido ao imenso respeito que tento ter perante toda a vida (animal e vegetal) e, tendo plena consciência dos enormes problemas Ambientais, Animais e Humanos, sinto que tenho a responsabilidade de tentar dar uma parte ou mesmo um todo da minha pessoa, para pelo menos ajudar a minorar alguns dos problemas e dos sofrimentos existentes, de forma que com a contribuição de cada pessoa possamos conseguir construir um mundo melhor, onde apesar de todo o sofrimento e carências existentes, possa ainda haver esperança, a esperança da mudança. Foi assim que nasceu a necessidade de fundar a InfoNature.Org, para que tanto eu como outras pessoas com os mesmos objectivos, possamos ter mais e melhores instrumentos no sentido de ajudar na transformação do Mundo.
Sempre senti esta necessidade, mas foi nos últimos 11 anos que me foi possível contribuir mais para a causa Animal, Ambiental e Humana.


2 - Que tipo de iniciativas promovem para ajudar os animais?
 
O tipo de iniciativas que promovemos atingem todos os campos possíveis, pois só são limitados mediante os nossos recursos humanos e económicos, que infelizmente são escassos pois trabalhamos unicamente em regime de voluntariado e em relação à InfoNature.Org não aceitamos doações em dinheiro. Apesar destas limitações, a vontade de ajudar é profunda, sincera e inesgotável. Posso dizer que os voluntários são a pedra basilar de qualquer organização.
As formas como tentamos ajudar animais são muito variadas, indo desde: recolher animais abandonados das ruas e leva-los para associações de protecção para animais abandonados; recolher animais abandonados para irem para a casa de pessoas que os queiram e possam adoptar; fazer voluntariado em albergues e associações de protecção animal; ajudar animais maltratados; ajudar animais selvagens; promover o Vegetarianismo e Veganismo como forma de respeitar toda a vida animal (evita a tortura e morte de dezenas de milhares de milhões de animais por ano) e a vida vegetal (é das indústrias mais poluidoras no mundo) em todo o planeta; planear e organizar acções de voluntariado e activismo pela Internet e em manifestações; entre outras coisas…
Fazemos isto tanto em termos de acção de campo como virtualmente pela Internet. Tentamos usar a Internet como um meio de informação muito poderoso e que muito nos tem ajudado, pois informar as pessoas usando todos os recursos possíveis e em especial a Internet, é crucial para podermos desenvolver e aplicar os projectos de forma mais célere, eficaz e abrangente.
É muito importante referir que nós não ajudamos apenas os animais domésticos como gatos e cães, mas sim todo o género de animais, pois todos eles, apesar das diferenças óbvias entre si, têm o direito intrínseco à vida e à liberdade e nós deveremos respeitar esses mesmos direitos, por ser moral e eticamente correcto.
3 - No Verão o número de animais domésticos abandonados sobe em flecha. Como conciliam esse aspecto com a ida de muitos voluntários para férias? Disponibilizam serviços / recursos especiais nesta altura do ano?
Infelizmente é uma grande realidade que no verão, como as pessoas vão de férias e não têm um local onde deixar os “seus” animais de estimação, preferem abandona-los em detrimento de perderem uns dias de férias num local que pretendam ir. Para estas pessoas é preferível abandonar uma responsabilidade e perderem um amigo, um membro da família do que uns dias de férias, isto é simplesmente puro egoísmo. Quando uma pessoa escolhe adoptar um animal na realidade escolhe tomar uma grande responsabilidade nas suas mãos, que é o de cuidar de um outro ser vivo, ser vivo este que precisa de carinhos e de atenção a todos os níveis, não apenas alimentares ou de saúde. De certa forma podemos dizer que cuidar de um animal é quase como cuidar de um bebé humano.
Em relação aos abandonos, o mais importante nestes casos é prevenir do que remediar. O que quero dizer com isto é exactamente o de informar e consciençalizar as pessoas que têm animais para o que foi referido acima, para além de demonstrar alternativas como a possibilidade de pedir-se a amigos ou centros de acolhimento temporário para cuidar deles.
É natural que nas alturas de férias muitos voluntários possam não estar disponíveis, e nesse aspecto pouco podemos fazer senão tentar redobrar os nossos esforços para colmatar a escassez de ajuda. Na altura das férias, podemos individualmente tentar formar FATs (famílias de adopção temporária) ou então como já referi, informar as pessoas de locais próprios onde possam deixar os “seus” animais durante as suas férias, com preços muito acessíveis e onde eles são bem tratados.
 
4 - Comparativamente aos outros países Europeus, como é que os Portugueses tratam os animais? Como é que aderem ao voluntariado ou às ajudas financeiras?
Comparativamente a outros países, pelo que vejo e pela vasta experiência que tenho, considero que grande parte dos portugueses não estão sensibilizados para a questão dos animais, tanto em relação ao respeito por estes, como nas questões de auxiliar em termos de voluntariado ou financeiro. Na realidade existe um grande desinteresse e/ou inércia por parte das pessoas que apenas se preocupam com os seus próprios interesses pessoais. Por outras palavras, egoísmo.
Para mudar as coisas há que primeiro informar, sensibilizar e consequentemente mudar as mentalidades. Só assim é que podemos ter a esperança de o panorama do respeito pelos animais mudar de forma radical, obviamente para melhor.
Em relação a outros países europeus muito especialmente os do norte, a situação é um pouco divergente, pois a mentalidade existente é diferente. Ainda assim, existe um trabalho muito intenso a ser realizado.
5 - Que apelo deixaria no sentido de sensibilizar a população?
O apelo que deixaria à população de Portugal e do mundo, é o de não contemplarem os animais como seres inferiores e incapazes de sentir dor ou de ter emoções, como seres sem personalidade própria que apenas agem por instinto, pois isto é obviamente uma visão deturpada da realidade. Este é o factor que determina a inexistência de uma consciência que permite que todos os anos muitas dezenas de milhar de milhões de animais sejam maltratados, torturados e chacinados.
A realidade da mentalidade Humana que dá origem a estes problemas, depreende-se do facto que a esmagadora maioria das pessoas na sociedade mundial vê os animais como meros objectos, como sua propriedade e um produto, quando no entanto é crucial referir que ninguém no mundo tem o direito de controlar, de comandar um outro ser vivo, uma outra entidade, contra a vontade desta e/ou dos seus direitos. Se vermos as coisas através desta perigosa forma de mentalidade, damos espaço para a criação de uma “desumanização” em relação aos animais, que existe desde tempos imemoriais. Quando achamos que outros seres são inferiores, temos a forte tendência de os tratar como tais, ou seja, de forma directa ou indirecta não os tratamos com a consideração que merecem e é nestes aspectos que surge toda a base do problema da questão relacionada com os Direitos dos Animais.
Para superar este tipo de visão deturpada as mentalidades têm de inevitavelmente mudar, teremos de passar de uma simples e desvirtuada mentalidade de vermos os animais como seres inferiores, para os vermos como Seres Sencientes, dando-lhes o devido respeito, direitos e liberdades que merecem criando assim as oportunidades de serem libertados da predominante mentalidade social Humana. Para tal também é necessário informarmo-nos acerca da realidade do mundo animal e criar uma mudança a partir do interior, em termos de conhecimentos e de espiritualidade.
É importante salientar por exemplo, que quando optamos por cuidar de um animal na nossa casa, ele não passa por ser nossa propriedade, passa sim por ser nosso amigo, nosso companheiro, nossa responsabilidade da qual temos de garantir na medida do possível a sua benéfica condição física e emocional, tendo no entanto esse ser a sua própria individualidade da qual temos de saber prezar.
Por fim, gostaria de afirmar que, as pessoas podem pensar que a sua ajuda pode não fazer a diferença, mas na realidade faz sempre uma diferença. Se podermos salvar um animal, teremos salvo essa vida e isso representa toda a diferença. Há que compreender que a mudança começa em cada um de nós, com as mais “pequenas” escolhas que fazemos no dia-a-dia.
- “A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana.” Charles Darwin
- “A grandeza de uma nação e seu progresso moral podem ser julgados pelo modo como seus animais são tratados.” Mahatma Ghandi